sábado, 14 de novembro de 2009

"nessa construção nova"



NUNCA HAVIA ME ALEGRADO TANTO pela fragmentação e pela necessidade e o fracasso de juntar, pois só o que recebia era segmentação inesperada e um novo resultado imediatamente pressuposto. Tal qual supor uma história inteira, ou como inesperar que um tempo nunca termine.


***

O meu resultado foi: interrupção seguida, disfemia aceitada e amor ao estranhamento recebido de um estranho próximo e maior. Amei humildemente seus dois olhos divertidos, que não me amavam e nem me queriam ver na totalidade. Senti-os, e os pressupus também, naquilo que eles pareciam jamais querer presenciar em cor e em grau, através das fortes lentes ensebadas, tão rentes a suas sobrancelhas tão inquisidoras, fatais.
Não importa o que queria se só se queria flagelação e autoflagelação em sua frente. Soube sobre e sob os dois, e a negação estava clara, desde muito. Como o não se perpetuando em meu corpo.

Como não perpetuado pela vida.

sábado, 17 de outubro de 2009

Pela entrada do que quis



O que precisa não é o peso dos olhos sobre, nem mesmo pensar sobre a voz contida. Houvesse um sinal que premeditasse a insinuação que surgiria de repente e então veria; veria como quem vê: “me insinua no que diz, porém insinua mais naquilo que não diz do que naquilo que se diz...”. Fosse quem fosse, olharia bem... Pois que muito em breve seria estranho falar sobre este passado de agora; difícil de afirmar: “está passando, tem sentido”, bem como um sentido desperdiçado em outra coisa, que fica longe...

...vai ter passado, trazendo a vontade de saber: não viverei mais por intermédio da ausência? caberei sempre mais na falta do que na presença? Está passando... logo vai terminar, ficando o incerto ao lado do desconhecido que afirma; — continuando uma mudez? — a coragem de aceitar a repetição na respiração, esquecendo e relembrando facilmente outra coisa pela pergunta “seria melhor se manter sem saber do bom e sem tomar conhecimento do ruim?”... O que seria não ter o que se quer; dizendo sem clareza, na inexatidão: ouço... ouço bem a voz; ouço-te daí, ouço comum a entrada que passa pelo que tanto quis.

sábado, 19 de setembro de 2009

Não esperava



Não esperava pergunta alguma. Não ansiava que perguntasse intensamente sobre nada, que cobrasse sobre alguma resposta difícil e íntima demais. Nem mesmo queria esperar por uma daquelas perguntas gostosas... Não queria, até que surpreendentemente a pergunta sem demora então viesse: ‘Quais são os seus planos para hoje?’... (Planos? planos?)
– seus – quais – amanhã – são – planos – para – hoje – sempre, de repente é um só eco; é uma goela densa, e uma preocupação. Úmida, cai lentamente mostrando uma expectativa ainda maior, por duas orelhas estranhas, agudas em uma relação diferente, sobre uma curiosidade que parece que vai demorar a morrer, mas que rapidamente pode — pela emoção, pela vergonha, pela lentidão em ser correspondida ou pelo quê? — Não, pois dependendo de quem vem, não é mais uma interrogação, mas sim uma bala, um projétil que trespassa a cabeça, atravessando o que foi feito e o que se quer e o que se poderia; o que se desejaria fazer rapidamente ou se passar meses inteiros tentando concluir, e que, depois de acabado, valesse tanto que voltasse futuramente pelos olhos de quem perguntou.”

sábado, 29 de agosto de 2009

Num único dia marrom



SÓ SEI QUE QUANDO DEI POR MIM, já estava pego. O dia me pegou e nem percebi; foi instantâneo, fugaz: o dia me pegou e só em seguida me peguei pegando o dia. Fui claro, foi breve; fui fácil, foi simples. Nosso contato se deu sobre a terra úmida; ainda sobre suas mãos macias e frutíferas que me deram o tom de sua profundidade escura; em seguida, a fosforescência clorofilada de que sempre ansiei brotar, ser feliz e lembrei-me da boca brilhosa da mulher que não queria amar nada que lhe fosse gratuito, e eu parecia querê-la como se tivesse escolhido o caminho tortuoso de falar na multidão estando nu. Descobri que a minha confusão era objeto de diversão; provia o divertimento resoluto através de mim! parecendo que faltou intensidade, que ali não caberia a verdade e amar a cor de um dia do qual nunca possuí totalmente, ter a cara de um único dia na certeza de que nunca o possuirei por completo. Sempre apenas em alternância, apenas a cada temporada isolada.

sábado, 8 de agosto de 2009

— a predisposição, o espaço,

Quis recostar a cabeça e fechar os olhos como se não tivesse culpa alguma no mundo. E manter de uma maneira fácil o que tanto era necessário manter. Em um salto grandioso que acontece, se percebe que não se pertence mais: não se é do homem, não se é do tempo, não se é das palavras sábias de ninguém. De um momento para o outro aparece a noção de que ontem, hoje e amanhã são na verdade uma pessoa que, em pé, teme se entregar, não conseguindo ser o que acha que é. (E só queria ser a respiração, o livre caminhar pela calçada, sem sonhar e sem saber, mas que entretanto se vê forçado a ser a cidade, que é feita de pedra da mesma maneira que o chão, rufando e recebendo). O que ainda pensaria ser, e o que ainda pensaria em ser, se lhe fosse apresentado, como novo e possível, um caminho breve que portasse o esquecimento, engolindo o que só se queria debaixo de chuva. Só não crendo no possível para não acreditar no que sentia. Contra a disposição e o cansaço de uma luta de quem nem mesmo lembra o que faz e por que faz, de tanto repetir “isso é preciso”. Quem sabe a ligação não devesse ser necessária nunca mais e o que se constituía em uma visão anterior fosse completamente solto e independente da visão que ainda viria; e não mais necessitasse de fins e nem de uma continuação, e a interrupção lhe passasse a ser definitivamente cultuada, como um ritual sagrado. Ficaria presumível sem poder deixar o branco, o espaço reservado, a lacuna... o espaço.

sábado, 1 de agosto de 2009

Se não se diz



Porque não 'se dizer alguma coisa' parece ser tão atraente quanto ao 'se dizer': onde então se ocultava a clareza de uma sinceridade?, ela que, buscada, se perdia na penumbra de uma esquina na rua da casa, às 19 horas numéricas de não condescendência com o que se diria. Pois se o dizer seria uma arte, o não dizer seria o quê? seria...

sábado, 11 de julho de 2009

Necessidade conspurcada

Ficou tarde — o que já estava feito apareceu; o que já não podia alterar se interpelou; desapareceu o ponto de partida — o início, o meio e o final — a necessidade de trabalhar conjuntamente com a percepção. O conhecimento ao cômico aparece: pequeno e brotando de alguma dificuldade — caminhando em direção ao sensual — à cabeça, uma luz dita pomposa e que transcende: vaga e sonolenta a idéia de que para que se possa pôr a vista sobre si, deva-se realmente rememorar o esquecimento do que lhe será atribuído, e reviver de onde encontrou um pedaço de seu “meu”. “Estar para dizer que se está” e “fazer para dizer o que se faz” passam a se tornar o grande medo — melhor seria a ausência de um lugar; o não-querer-pertencer, e ficar onde ficou o rabisco do que se disse fácil, simples... pouco, banal...