sábado, 26 de março de 2011

Um



Do ontem, ainda continuava nascendo muita coisa; do agora, ainda surgia vontade de amanhã. E levanta e caminha em torno com o desejo, respira e admira bem. Na prontidão pra receber ajuda de ninguém que pudesse dizer sem piedade o que estava acontecendo.

Pra continuar, precisava mesmo dela.


até que o dia ia anoitecer e a noite amanhecer. íamos juntos, contudo. Ser felizes — era uma necessidade. A gente podia era uma, quando ainda era um. Ainda era um, quando ainda se é um — quando, sempre, se está sendo um.



sábado, 19 de fevereiro de 2011

Pensou



que poderia criar então, sem nada de especial; seria especial então por isso. Por não ser especial. Mais uma vez. Resta. E o que fica pra falar quando o dia está terminando e se vê que pela rua toca uma música alta e infame que não agrada a ninguém mais senão aquele que a ouve? Havia tanto pra falar mas vontade nenhuma; tanto era implantado em nós por um ou outro e ao mesmo tempo destruído sem intenção por quem não nos entendia como pensávamos que tinha que ser. Logo, cada detalhe de cada coisa a ser dita, a ser contada,  escapa, como um rato gordo porém veloz.
Do pensamento, pensa que o que resta, resta do corpo. E que o que ainda sobra é sua procura.


sábado, 11 de dezembro de 2010

Presente sem começo


fazendo parte do recomeço estranho que era também perceber, abrir, olhar e fechar olho; chamar, esquecer e relembrar; sonhar, levantar e sair acordado para se encontrar com o que é dito real, fruto do que não passa de esquecimento puro de muito.

 Subtraindo o começo da história, a coisa seria mais simples. Ouvindo com cuidado o ruído da alimentação com o garfo no prato e a tritura dos alimentos. Ficando a partir daí. Do som humano e digno. Som sábio para quem quer aprender. Mexeria, reviraria e se nutriria aos poucos, tentando ser eficaz e eliminar. Estar presente. E estar tão presente, então, é ver passar. É prestar bem atenção ao que foi e ao que está sendo; ao que desce e ao que está descendo, ao que ocorre a nossa fisiologia e a de quem se aproxima devagar.


sábado, 30 de outubro de 2010

Como estava tendo que ser



O que faltou para que o restante do que ainda não tinha sido falado ressurgisse em nome do que não tinha nome e nem significado aparente?

Vaguidão, nulidade, extensão mesmo, planura — quantas outras fraquezas ainda mais. Toda vez podendo reproduzir  o que andou acontecendo; mas não é isso que tem importância mais. Só resta, de repente, puxar novamente a coberta do existencial, abrir as cortinas, ver o que se passa no interior, sobre o estertor anteriormente inaudito. Desnudar-se — e s p l e n d o r o s a m e n t e —  num rio de era-assim-que-tinha-que-ser.



sábado, 9 de outubro de 2010

Ainda maior que o sempre ter


(...)

O que ficou no momento exato em que nada mais parecia existir, foi apenas um espaço individual. Ele ainda existia e não sabia por quê.

(...)

Aguardava uma resposta... Todo o resto devia ter sido assim de fato, um aguardo. Uma vigília ansiosa  pelo bom e pelo ruim. “Aguarde-se” devia querer dizer. Aguarda-se outro querer ainda maior que o ter e o sempre-ter. Porque o ter  e o sempre-ter podem ser mais complexos ainda. Pode-se, em seguida, querer somá-los no meio da noite esperando-se obter um resultado maior. Mas se não fosse isso, do que faria parte então? Ficai,  ficai, ficai, sempre se espera. E havia um quê de culpa nos olhos de quem de repente chegou.

(...)

sábado, 7 de agosto de 2010

Tinha alguém lá




Disse que havia tanto a se explorar, que havia possibilidade de manter tudo sempre muito fresco, por mais usado, como mãos lavadas, e que um escape só dependia daquilo que não queríamos saber. Não sei o que saber quando tudo que se sabe já não é tão sabido dentro de uma utilidade única, e nem o que querer, quando tudo que se quer não é visto da maneira como poderia; então qual seria a maneira? minha maneira não é sempre a mesma; não há só uma, disse também. Essa nossa minha maneira está sempre sendo rápida demais, sempre sendo e querendo mais; porém só o que podia querer era um encontro bom mesmo. Na praça onde ela chorava sentada com o sapato jogado ao lado no chão, recusando ajuda, rejeitando possibilidade. “Ou deve ter sido deixada ou deixou cedo demais”. Bem cedinho tem vivido o que todos temos vivido juntos: tem vivido sozinha. Filha da praça agora, o que queria? só lamento? Só o que podia sentir, vontade de sentir — chão da praça, quem o é que já não o tenha tocado? Podia engatinhar toda a extensão plana e alcançar, obtê-la, e lá, no alcance perpétuo da lágrima desconhecida dizer que sim, que havia mesmo muito a se ver.

sábado, 10 de julho de 2010

“É isso que precisa”


Ia se manter em pé esperando que perguntasse. Que trouxesse então, como quem traz um grande alimento nos braços, a sua alimentação. “É disso que precisa”. Podia até se apoiar nos dedos se quisesse... Aguentaria. (Não estava lá, ou fingia não estar). Ia olhar bem, reparar... O que pretende?, podia ser a pergunta. “O que vai fazer amanhã?”, veio do nada. Veio como veio e foi como foi. Lembrou que estava perto, e tinha que sorrir.


Estava mesmo sendo assim; estava se reprisando enquanto não fosse como queria. É isso, só um abastecimento então, sem que por sua vez se saiba de alguma coisa... é só isso e não passa de uma recepção de qualquer coisa. Um recebimento afetuoso do que já está sendo passado. Manter-se-á como uma coisa inédita na incerteza de não ser. Postando-se como alguém que realmente esteja a fim de receber toda a dificuldade alheia do mundo. Como quem estivesse disposto a enfrentar gratuitamente toda essa constante dificuldade.