sábado, 23 de março de 2013

A goela densa




— 
Bem, mas como vou continuar, se não consigo deixar de pensar no que acabei de vivenciar mas que devia ficar para trás. 
Não posso continuar enquanto não for suficiente  propriamente suficiente  de fazer o que gostaria de ver e o que gostaria de ter; o que não encontro. 
Sabe o que quero dizer? Fazer o que queremos por não termos o que queremos e criar aquilo do que fomos privados.
Criar o que não estamos tendo, como que fosse te criar um pouco e você me criar um pouco.



"é ser arrancando repetidamente o seu próprio dente de leite na infância; tinha que tirá-lo da boca com a ponta dos dedos, sentir soltando vagarosamente; e seu estalido ao se desprender totalmente e o gosto de sangue  na língua!".







(...)

Caminhavam juntos e caminhavam separados para poder caminhar mantendo um ao outro; se mantendo assim também. Deixando as pegadas que  seriam logo em seguida apagadas.



sábado, 2 de fevereiro de 2013

Dualidade paradoxal e antagônica da beleza

O tempo que se media inteiro pelo ter e pelo não mais ter e pela ilusão do ter e de sempre ter. 

(Mais uma vez o sempre estava enfrentando o nunca, caindo num jogo fácil, previsível, fugaz. Era mais uma dualidade inútil, inventada quando surgiu a ideia de união e de que sozinho ninguém aguentaria e de que haverá sempre um complemento para um elemento e assim por diante. Nascia o casamento também nessa mesma época).

"Que tinha que sair, que tinha que ganhar que tinha que não mais tinha, tendo o que quisesse no plano do ideal".


Mas tinha a capacidade de criar uma feiura imensa, carregada. Podendo ser trazida a tona a qualquer hora. Sendo feio não o que foi dito ou o que foi visto repentinamente, mas o que já estava lá o tempo todo, misturado ao que antes parecia bonito.


Trazendo para o meio da representação e da simbologia, deixando assim: — era uma macarronada bem bonita, atrativa, vomitada de forma loquaz, azeda, com pedaços efervescentes no chão. E pedaços rosados, de carne moída, saboreada com tanto requinte; agora se perderia no chão. Uma dama da sociedade não poderia vomitar daquele jeito. Alguém que um dia falou sobre a beleza das paisagens naturais, dos adornos celestiais, empregando técnicas que tornariam a leitura mais elaborada e mais prazerosa, não poderia dizer nada sobre aquilo.  Que o vomito e os pedaços de carne e o ácido gástrico no chão, dizer de forma simplória, cheiravam azedo e eram uma coisa bonita de se ver, como um espetáculo também natural. 

Então o contraponto seria dizer: a brisa leve na face do dia, o sol que ardia e os pássaros rasgavam o céu. Estava ali. Estava tudo. Sentia os olhos, via que havia mesmo algo além... havia vômito no chão e não havia...

sábado, 8 de dezembro de 2012

um mosquito


— mas de repente o pairar daquele inseto no ar, o movimento que fazia, o tornava portador de sua real multidimensionalidade;

Bastava pra provar o quão significativo podia ser não ver nada além dele, pois que representava não apenas espécie, mas a generalização de nossa condição presente, por uma trajetória que passa de forma semelhante sempre constante individualmente para cada um.





Não que isso valesse como conforto, mas que demonstrasse, nos entretendo, que realmente não passa de um ciclo que termina e que por se tratar de um ciclo tal qual o entendemos — possui sempre o seu depois.





sábado, 28 de julho de 2012

O aterro que desterre


Quando o que tinha, mesmo o que valia, virava um grande lixão: um lixão de grande porte — que recebia qualquer coisa que possuísse ou que pensasse possuir ou que, ainda, pensasse em possuir. Mas se tinha que ser constituído por posses! — mas que se tinha que admirar e ser alvo e ser objeto. E que se tinha que cumprir. 

O grande terreno baldio estava presente em sua amplitude, parecendo não poder receber mais nada; o que antes valia, estava com ele agora; com ele, os depósitos que recebe pareciam mesmo valer tanto outrora — valia a ideia, valia a vontade, reluzia a nota e chamavam a atenção os mínimos artefatos, que um dia se disseram uteis demais. Glicério, Gramacho, o que cabia neles. 

Usava-se de nomes pela primeira vez, para representar o grande aterro em que mal cabia. 


sábado, 21 de abril de 2012

O seu recomeço acontecia antes mesmo de ter terminado alguma coisa




"Se fosse pedir o que vinha de mim, viria coisa que nem sempre agrada. Viria lembrança. Pedindo o que havia. Trazendo incapacidades, desastres, desajeito. Existe uma grande fatalidade que parece acompanhar cada um de nós sempre; desde que chegamos aqui, abrindo nossa boca desdentada pedindo.





Ao pedir o seio, o que mais pedíamos junto para o nosso futuro? " 



sábado, 24 de setembro de 2011

a imagem que precisou

(...)


                              uma demonstração banal do que podia ser feito ali. Uma linha em branco e fica tudo balançado. (...) Pois a linha branca, o que ela representa?

Como posso ser plácido assim! Sem tentativa de fim. Sem me importar com o meio. Agora enxergo bem.

Tudo isso pode ser útil mesmo. Contra a linha branca que é a demonstração do pensamento fraco que se esgota pensando em como seria bom estar no meio, ou chegar logo no fim; esquecendo como quão pouco importa o fim, o próprio-fim, em si.


(...)


sábado, 25 de junho de 2011

uma idealização, alguma coisa



(...)
 Exaspera-se, vendo através de alguém que já não habita mais o quão ralo pode ser o que se passa em sua mente. Frágil, e se esfarela conforme bate uma brisa leve, que leva embora, carregado por uma nova e repentina vontade: de assistir em conforto. Colocar à mostra as coisas do dia-a-dia.
 — Acordo e vou dormir; “tenho pressa do dia passar”; “estou aprendendo um idioma novo, considerado difícil por muitos”; “elogio um amigo”; ajo de forma engraçada; digo coisas que podem ser úteis; exprimo um riso de forma atual, e estou inserido num meio, fazendo parte do futuro, me orgulhando de minha própria incerteza alimentando a minha própria confiança com pensamentos tirados a partir do que acho que fiz de forma admirável; então comunico, aos meus contatos e seguidores todos, novidades quaisquer que me aconteceram de ontem pra hoje; também gosto da tolice, quando ela é proposital, e a causo com um gosto peculiar; outra coisa que vai interessar a todos — escrevo e escrevo, mostro e faço conhecer como estou pensando ser. E é assim que estou crescendo, me enraizando. Vou mantendo o que tenho e até mesmo o que nunca passou por perto. Mas de repente imagino que um pássaro pousou dentro da minha boca e pisoteia minha língua inteira. Já perco a idealização que estava sendo criada tão prazerosamente.




(...)