— Deita na terra!, não ouviu esta exclamação, não havia ninguém que pudesse dizê-la. Não havia ninguém que pudesse dizer que encostar o ouvido no chão, mantê-lo grudado na terra, na tentativa de ouvir algo de bom, poderia ser feito. Foi quando se percebeu que o mundo não é feito só de palavras bonitas; surge o desejo de se deitar ali mesmo na grama, no chão, na terra, no pé daquela árvore, e permanecer: com muita calma pode-se conseguir; rosto a rosto, é apenas você e o chão, que com a respiração ofegante, tanto quanto a sua, diz alguma coisa — é tranqüilizadora a sua palavra de chão pisado, que agora sente a sua face na dele —, pois o mundo não é feito só de palavras bonitas: com uma em uma das mãos se tem a chance de um arremesso contra o peito de alguém pra destruir-lhe o dia, com a outra, pode-se criar... Mas de quem é a escolha? De quem é a culpa? — Da causa ou do efeito? Do tempo passado e do que nele foi feito, ou apenas do tempo de agora? Da sentença que surgiu primeiro? É do que se inventou sem a necessidade de se ter inventado? É da pergunta ou da resposta? — Deita na terra!, não havia ninguém que pudesse dizer, não havia razão aparente pra que se pudesse fazê-lo.
sábado, 21 de março de 2009
sábado, 14 de março de 2009
Irrequietude
Mas você ainda podia sentir nojo de tudo aquilo, sendo que, na verdade, se encontrava impregnado; tudo parecia tentar fazer parte de você, tudo dali. Esconder-se detrás de você mesmo, como quando se é criança e se esconde amedrontadamente, timidamente, detrás das pernas do adulto, não adiantava mais. A vontade de fugir como um animal arisco e selvagem era tamanha, você, então, podia entender tudo: podia entender sobre o que já se sentiu de selvagem por outros. E a palavra se derrama por toda uma pista, um barril rola do caminhão e estoura — é vermelho e denso o seu líquido que escorre pelas pernas de transeuntes que nem ao menos percebem o que está por debaixo de seus pés. Ninguém sempre dizia: entre um lado e o outro da rua há mais do que se possa imaginar, não são carros que passam, não são motores. No entanto esse ruído todo apenas demonstra o quanto se pode estar só em um meio. Quanto de perigo há em um contato com o denso liquefeito tremor das pernas — não é dramatização, e não é melancolia — é puramente precaução, pois estas nada representam para alguém que não pode entendê-las senão quando se depara com cadeiras espalhadas sobre um vasto salão; seria uma platéia, mas as cadeiras todas estavam vazias. Parece-te que alguém deveria estar ali, alguém deveria estar naquela cadeira? Ou simplesmente todos fugiram como na percepção de um incêndio principiante? Ecoa... Ecoa alguma coisa da qual não se pode distinguir... um berro no longínquo da rua, ... ecoa...ecoa...ecoa o berro no longínquo da rua, mas mesmo sendo noite, não se entende, porque um cão latiu tremendamente no mesmo momento do berro ininteligível.
Ainda existe uma ânsia quando se recosta a cabeça na noite. Ainda existe um pequeno crepitar que se estala dentro de você.
sábado, 7 de março de 2009
Nada sobre absolutamente nada
O que você precisa neste dia? Você precisa pensar sobre muita coisa — disse ele a si mesmo quando percebeu que tudo estava ali — tudo está no mundo! — tudo está pronto, poderia repetir incontáveis vezes, mil vezes seguidas — tudo está no mundo e de nada me vale este tudo — mas o que é exatamente este tudo de que tanto se fala? — é a profundeza das raízes das árvores ou são suas cascas, seus frutos que alimentam? — O tudo é o tudo, e isso já basta! — alguém sempre responde. — Contudo, que mais se poderia dizer a respeito do tudo, sem que necessariamente se fale sobre o nada? — O nada na água do rio, o nada na avenida, o nada na casa, o nada na panela — a morte na panela? Dialoguemos então sobre o tudo que nos consome; dialoguemos sobre a vida empresarial; sobre o mundo corporativo; sobre a tarefa dos pedreiros e as atividades das donas de casa, que diariamente se põem a bater tapetes na janela de onde residem no subúrbio da capital; sobre os meninos que correm no colégio e, neste exato átimo de momento, sofrem um forte impacto e perdem seu dente da frente no chão da quadra poli-esportiva.
Vamos dialogar mais — lembrou-se o que lhe foi dito — sim, dialoguemos então, sobre nada daquilo senão o que mais nos interessa: a morte por afogamento, algum bebê importante; a autoflagelação de uma mulher exteriorizada. Entretanto dialoguemos mais sobre o nada desta vez, — lembrou-se de que isso poderia ter sido dito — não como monges budistas que parecem dialogar em silêncio, mas ao contrário, vamos falar sobre o nada em voz alta, pra que ele nos ouça e sinta, mesmo que enganosamente, que está deixando de ser apenas um nada e se tornando alguma coisa — nadinha, nadinha de nada, não vale nada, não é de nada, não sabe nada — mas como não se sabe o nada? — alguém sempre pergunta — apenas porque em muitos momentos do dia desejou estar em contato só com aquilo que se sabe de nada. Entrar em contato com o nada; estar no nada, viver o nada, dizer o nada pra que todos o queiram, nem que só por meia horinha, também; pois poucos já sentiram o nada, e se regozijam nele. Um nada de alimento, um nada a sua volta, nem o vento nem a nuvem, nada de silêncio ou nada de barulho, nada de cigarro, nada de chegar tarde em casa, nada... nada... somente o nada naquele momento de nada. Eu sei nada — poderia muito bem dizer que não sei de nada — mas realmente, sabe-se muito pouco sobre o nada; então, dever-se-ia falar mais sobre o nada sem se importar se não se sabe de absolutamente nada a respeito de nada.
Vamos dialogar mais — lembrou-se o que lhe foi dito — sim, dialoguemos então, sobre nada daquilo senão o que mais nos interessa: a morte por afogamento, algum bebê importante; a autoflagelação de uma mulher exteriorizada. Entretanto dialoguemos mais sobre o nada desta vez, — lembrou-se de que isso poderia ter sido dito — não como monges budistas que parecem dialogar em silêncio, mas ao contrário, vamos falar sobre o nada em voz alta, pra que ele nos ouça e sinta, mesmo que enganosamente, que está deixando de ser apenas um nada e se tornando alguma coisa — nadinha, nadinha de nada, não vale nada, não é de nada, não sabe nada — mas como não se sabe o nada? — alguém sempre pergunta — apenas porque em muitos momentos do dia desejou estar em contato só com aquilo que se sabe de nada. Entrar em contato com o nada; estar no nada, viver o nada, dizer o nada pra que todos o queiram, nem que só por meia horinha, também; pois poucos já sentiram o nada, e se regozijam nele. Um nada de alimento, um nada a sua volta, nem o vento nem a nuvem, nada de silêncio ou nada de barulho, nada de cigarro, nada de chegar tarde em casa, nada... nada... somente o nada naquele momento de nada. Eu sei nada — poderia muito bem dizer que não sei de nada — mas realmente, sabe-se muito pouco sobre o nada; então, dever-se-ia falar mais sobre o nada sem se importar se não se sabe de absolutamente nada a respeito de nada.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
A relação condimentada
Ela havia dito que aquele mendigo lançado ao chão, aos farrapos, dormindo sob o sol escaldante de quase meio-dia — lixo-humano, como ele havia se referido por brincadeira em tom irônico, por certo protesto íntimo —, era alguém que aprendia ali, em sua condição de miséria de indigente; decerto, sendo o que parecia ser, estaria sonhando naquele momento com um alimento quente, que lhe confortasse o estomago, ou uma bebida que o trouxesse, magicamente, de volta à vida, e o salvasse do inferno que o sol exagerado proporcionava a todos, sendo mendigos ou não. A sua ressurreição se daria por uma moeda, que lhe garantiria um copo de vida; e a aprendizagem dura foi um tema rápido e instantâneo a eles, que passaram por ali em segundos, sem ao menos supor que, a qualquer hora daquele mesmo dia, aquele sujeito desvalido que jazia no chão da calçada procurando a sombra do muro do cemitério do qual visitaram, poderia, em sua suscetibilidade de homem à margem da sociedade, sofrer uma agressão e morrer; mas o ponto principal disso tudo não seria sua morte exatamente, seria que ele ouviu o que foi dito pelos dois que passaram ao seu lado, naquela manhã de sábado — Ele ouviria, e se lembraria, em seu ultimo alento de vida, dessas duas vozes que passaram —; o sujeito lembraria e levaria consigo um último afeto por quem não conhecia. Seu sofrimento foi pressuposto e não seria difícil escolher uma canção que fosse tema, quando aquilo que se viu pareceu pesaroso e doeu ofuscado pelo sol, que não se mostra muito diferente do que foi semana passada e do que poderá ser amanhã senão quando se faz um passeio como aquele. Então seria essa uma canção desoladora, contudo, apenas fazendo com que respingue em uma lembrança futura. O castelo abandonado. Seria assim a lembrança imaginária de seu fim.Mas o individuo parecia desmazelado demais para que ouvisse o que foi dito a seu respeito — que estava ali para aprender, se redimir em sua vida na figura de mendigo, e que cada um, assim como ele, precisa passar por um tipo de aprendizado diferente na vida —, é em semelhante falta de percepção que as pessoas prosseguiam lanchando nas mesas do bar, pensou ao estirar as pernas doloridas e latejantes sobre a cama, e ter se lembrado também, que a sugestão dela, para tomarem um ônibus ao invés de caminharem, foi boa, e que se seguida teria sido melhor. — Mas a falta de percepção pode ter muitas razões! E uma delas, pode muito bem ser o conforto, o conforto de estar ao lado de quem agrada e que dá quase que absoluta certeza de que se pode dizer uma loucura qualquer, sem que se seja ignorado, ou então, ter um simples riso agradável como resposta condizente ao que foi dito; como piada, como uma bobagem a mais, mas que, entretanto, tinha um pequeno relampejo de tensão, medo ou alegria não declarada em verdade.
A latência das pernas na escuridão de um quarto parece não valer nada quando um dia próximo a findar pelo ponteiro sobre o 12, diz ter rendido boas risadas, e interessantes discussões sobre a natureza morta, a beleza pálida, e rostos macabros de meninos na pinacoteca; ainda mais, quando o que resta de um dia agradável é uma lembrança engraçada, como a lembrança do ultimo passeio que fizeram e misteriosamente foram parar em um restaurante que se denunciava anti-higiênico pelas moscas que reinavam com absoluta pomposidade, e onde as garçonetes entregavam o seu desleixo pelo modo do qual se vestiam, e onde eles acabaram comendo o que não desejavam de verdade; tudo porque escolhemos demais, pensou consigo — um riso no escuro —, mas como é que podemos ter tamanha qualidade de nos metermos em lugares assim? Lugares onde as pessoas podem muito bem supor coisas estranhas sobre nós, e nos julgar, porque a garçonete podia muito bem julgar naquele momento, podia muito bem pensar consigo: “Mas que juventude estranha é essa de hoje! Em meu tempo, saíamos para comer uma pizza, ou simplesmente bebermos cerveja, mas não, me parece que as coisas mudaram; a pedida hoje é arroz, feijão, salada, frango e farofa. Eis a modernidade dessa juventude! Aceitam passivamente a oferta da farofa, talvez seja falta de dinheiro...” Mas a imagem do que foi comido no novo passeio sobrepôs esta idéia, sobrepôs até que então lhe viesse a extravagante imagem de um prato preenchido por Ketchup, um prato branco, transbordante de Ketchup, e a voz do copeiro que detrás do balcão dizia: “Estranha essa pedida! Geralmente o querem em sua embalagem convencional, em um recipiente propício, mas um prato! Diferente sua amiga, hein?!” Mas o que houve foi um mal entendido, não foi isso que pediu! Riram-se os dois, após ela retornar do banheiro, pois quando pediu o Ketchup, foi nas pressas de se encontrar com ele, daí o mal entendido talvez.Então um prato como aquele diz a todo instante impedindo a chegada de um sono concreto: tudo pode muito bem não passar de mal entendido! O que houve foi um mal entendido, pelo que, apressadamente foi dito, ou por um problema inicial de audição, ou ainda, os motores dos carros na rua. Foi essa a pequena confusão de um de seus passeios, e que de maneira nenhuma, poderia se resumir no prato, ou naquele condimento, por mais difícil que fosse conter a risada. E a farofa? Por que havia farofa nisso tudo? Em um turbilhão de imagens, rostos desfigurados, pernas latejantes, silhuetas elegantes, altos edifícios, e uma sensação de multidão, meio a vozes ininteligíveis, no escuro de seu quarto, como entre anúncios luminosos de um centro comercial? Ou na idéia de que, ao mendigo, ela, a farofa, talvez fosse um luxo? E os mortos do cemitério? Pois mesmo, os dois, não vendo as lapides famosas das quais desejavam, puderam se impressionar na lembrança de uma farofa, que não tinha ligação alguma com crisântemos, ou com as grades que possibilitavam que os dois, em mistura de espanto e alegria, mirassem lá dentro, dentro das covas. E a moça da entrada, vendendo aquelas flores fúnebres? Talvez louvasse farofa quando chegasse cansada em casa à noite e se preparasse para o noticiário, na esperança da morte de alguém de renome, para que pudesse vender. — Não leve isso à mal, moça da farofa! A luz do quarto está apagada — Sim — pensava agora, sem saber se era sonho, ou se era lembrança, se estava aqui ou se ainda estava lá, ao lado dela no ônibus, quando, ao se despedirem, quase tiveram um encontro dos lábios, que quase se tocaram em um ligeiro engano da direita com a esquerda da face —, louvemos todos a farofa em prol de uma amizade sincera! Ela possibilita a falta da vergonha. Louvemos a farofa, pois é ela quem nos acalma e nos diz: nesta nossa relação há um companheirismo que difere, há algo que foge completamente do que se podia pensar, algo que oscila entre um sábado e outro, e que congela na noite em que não se reparou se o céu estava estrelado ou não, porque as pernas latejavam demais para isso; latejavam demais e diziam que a farofa era o ponto culminante da ficcionalidade de um relacionamento, de uma amizade que se tornava tão consistente quanto a própria iguaria, quanto a própria farofa poderia parecer.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Lusco-fuscos num trajeto
Ele não mais diria o que disse quando se viu caminhando pela alameda vazia meio ao sopro gelado de um mundo próprio. Uma flauta de bambu parecia se manter tocada a todo instante; um assobio de alguém foi levado pelo vento e passou por seus ouvidos, dizendo que nele havia uma lembrança vaga; semelhante aos assobios do deserto; um faroeste. Uma antiga música oriental parecia querer ser seguida na rua deserta, mas a cada passo que se desse pelo azul escuro da noite que com toda certeza viria, seria como se fossem dados sobre notas desta canção que na verdade não se ouvia.
Tê-la deixado na porta de seu ônibus, pensou, foi algo bom, que parecia que nunca mais se repetiria novamente. Porém, ter tropeçado no vão da calçada parecia tê-lo feito um tolo. Não importa. Devia haver mais do que isso quando se caminha por uma alameda assim, após uma despedida.
Quando se tem um rumo como o metrô, por exemplo, o que se pode pensar como coisa mais importante senão o que fazer na hora da chegada ao seu destino final? – Pode-se pensar que caminhar a passos largos é importante também, pois as ruas do centro podem comportar indivíduos perigosos quando escurece.
Realmente, – continuou pensando a cada passo que dava – talvez eu não seja lá uma companhia muito agradável, talvez meus assuntos não sejam assim tão interessantes.
Uma vendedora de flores vinha lentamente em sua direção, vestida em andrajos se mostrava destacadamente em contraste às cores diversas das variedades das quais carregava, e que só se tornaram visíveis, pela escassez das lamparinas incandescentes que à sua passagem se ascenderam – bétulas, gardênias, jasmins, damas-da-noite, margaridas, lírios..., etc., todas em seu contraste de vendedora que passou e deixou um rastro de cheiro agradável, desconexo ao que aparentava a imagem ilusória de sua pessoa no vento.
A pressa é o que se encontra quando se chega ao final de uma ponte, se desvia de um ciclista, se ajuda uma senhora e se dobra na primeira a direita da travessa que desembocará na rua mais próxima da estação local. É, deve-se medir melhor as palavras, por mais amiga que a pessoa possa parecer, é perigoso que haja um mal entendido sobre aquilo que foi dito em um momento de distração, deve-se relevar as impressões incertas que se tem a respeito de alguém cujo não se convive ou se conviveu mais do que cinco ou seis horas por dia, pensou ao passar por uma padaria iluminada que oferecia quitutes e petiscos aos bêbados, e empresários da rua de domingo. Sim, pois, não sabemos bem ao certo que tipo de impressões podemos ter causado também; talvez ela me pense como um completo idiota, pois quando me olha é como se realmente encontrasse algo de ridículo em mim. Não é preciso dizer quando os olhos já entregam parcial a sua opinião. Mas, se existe esta preocupação demasiada como fazer amizades então? Pois, decerto, deveríamos agir como robôs inexpressivamente indecifráveis? Não, não pode haver dominação por tais pensamentos assim.
Desceu acelerado as escadarias da estação subterrânea do metrô que provavelmente estaria vazia a está hora. “Vamos, me diga um nome para esta flor!”– pediu ela, lembrou-se. – A invenção inesperada de um nome em uma tarde de domingo ensolarado não parece mais difícil que a invenção inesperada de um nome em uma tarde de segunda chuvosa, apenas quando se é bom naquilo que se faz – A criação de um nome não lhe era algo tão fácil quanto poderia parecer. O nome inventado não o agradou apesar de tê-la agradado. O nome foi um nome fantasmagórico, porque definiu e decidiu que esta seria a perenal lembrança de uma tarde de um dia que não se repetiria em todas as suas dimensões de um dia de companheirismo aparentemente fiel.
Desviando das pessoas remanescentes da plataforma do trem que acabara de sair, procurava um lugar ideal para aguardar o próximo. Mas o que houve foi falta de criatividade, porque o nome inventado foi extremamente semelhante a um nome já existente – o nome de uma bactéria! “Aborrecedor, humor inconsistente, desagrados, poderiam ser atributos para mim e minhas representações, meus temas. Mas o que é isso? Não duvide destas coisas, passeio sincero não se faz com frequência. Caminhar num parque pela tarde; uma aproximação sem interesses pode representar algum tipo de amizade crescente, da qual é dita inexistente em casos assim.” Bem, a isso tudo não se deve dar importância, pensou ao adentrar o vagão e sentar-se à janela na espera do fim da estrondosa campainha das portas que se anunciavam prestes a serem fechadas, até então: a partida.
O trem partiu e permitiu-lhe pensar analogicamente que não se é o mesmo a cada palavra dita como a cada paisagem que passa através da janela; não se é o mesmo a cada dúvida que se tem a respeito do que alguém, a quem se estima, pensa sobre você. “Não se pode ser o mesmo, assim como não se pode dar tanta importância quanto ao que se dá ao dizer bobagens sobre quaisquer coisas a qualquer hora do dia; há poesia nas bobagens ditas, e isso já foi dito”; dito e deixado para trás em uma despedida sincera, então se passa por uma avenida deserta, se encontra alguém e não se fala deixando-se para trás também; é um desconhecido; na verdade, queria-se ter dito; podia-se ter dito: “Não te conheço, mas nos cruzamos; sejamos amigos então!”. Desconfiança e idiotice, palavras que se cruzam no caminho de uma estrada mal iluminada e parecem tão pouco entender o que se enxerga sobre a palavra acaso. Mas isso tudo é como todas as rodas do vagão, ou como as luzes foscas e incandescentes dos postes que mal iluminam a rua: alta velocidade; aceso e apagado; incerteza de iluminar os mesmos repetidamente naquilo que se faz num trajeto a qualquer parte e a qualquer dia – simplesmente ascende e apaga; ascende e apaga.
Tê-la deixado na porta de seu ônibus, pensou, foi algo bom, que parecia que nunca mais se repetiria novamente. Porém, ter tropeçado no vão da calçada parecia tê-lo feito um tolo. Não importa. Devia haver mais do que isso quando se caminha por uma alameda assim, após uma despedida.
Quando se tem um rumo como o metrô, por exemplo, o que se pode pensar como coisa mais importante senão o que fazer na hora da chegada ao seu destino final? – Pode-se pensar que caminhar a passos largos é importante também, pois as ruas do centro podem comportar indivíduos perigosos quando escurece.
Realmente, – continuou pensando a cada passo que dava – talvez eu não seja lá uma companhia muito agradável, talvez meus assuntos não sejam assim tão interessantes.
Uma vendedora de flores vinha lentamente em sua direção, vestida em andrajos se mostrava destacadamente em contraste às cores diversas das variedades das quais carregava, e que só se tornaram visíveis, pela escassez das lamparinas incandescentes que à sua passagem se ascenderam – bétulas, gardênias, jasmins, damas-da-noite, margaridas, lírios..., etc., todas em seu contraste de vendedora que passou e deixou um rastro de cheiro agradável, desconexo ao que aparentava a imagem ilusória de sua pessoa no vento.
A pressa é o que se encontra quando se chega ao final de uma ponte, se desvia de um ciclista, se ajuda uma senhora e se dobra na primeira a direita da travessa que desembocará na rua mais próxima da estação local. É, deve-se medir melhor as palavras, por mais amiga que a pessoa possa parecer, é perigoso que haja um mal entendido sobre aquilo que foi dito em um momento de distração, deve-se relevar as impressões incertas que se tem a respeito de alguém cujo não se convive ou se conviveu mais do que cinco ou seis horas por dia, pensou ao passar por uma padaria iluminada que oferecia quitutes e petiscos aos bêbados, e empresários da rua de domingo. Sim, pois, não sabemos bem ao certo que tipo de impressões podemos ter causado também; talvez ela me pense como um completo idiota, pois quando me olha é como se realmente encontrasse algo de ridículo em mim. Não é preciso dizer quando os olhos já entregam parcial a sua opinião. Mas, se existe esta preocupação demasiada como fazer amizades então? Pois, decerto, deveríamos agir como robôs inexpressivamente indecifráveis? Não, não pode haver dominação por tais pensamentos assim.
Desceu acelerado as escadarias da estação subterrânea do metrô que provavelmente estaria vazia a está hora. “Vamos, me diga um nome para esta flor!”– pediu ela, lembrou-se. – A invenção inesperada de um nome em uma tarde de domingo ensolarado não parece mais difícil que a invenção inesperada de um nome em uma tarde de segunda chuvosa, apenas quando se é bom naquilo que se faz – A criação de um nome não lhe era algo tão fácil quanto poderia parecer. O nome inventado não o agradou apesar de tê-la agradado. O nome foi um nome fantasmagórico, porque definiu e decidiu que esta seria a perenal lembrança de uma tarde de um dia que não se repetiria em todas as suas dimensões de um dia de companheirismo aparentemente fiel.
Desviando das pessoas remanescentes da plataforma do trem que acabara de sair, procurava um lugar ideal para aguardar o próximo. Mas o que houve foi falta de criatividade, porque o nome inventado foi extremamente semelhante a um nome já existente – o nome de uma bactéria! “Aborrecedor, humor inconsistente, desagrados, poderiam ser atributos para mim e minhas representações, meus temas. Mas o que é isso? Não duvide destas coisas, passeio sincero não se faz com frequência. Caminhar num parque pela tarde; uma aproximação sem interesses pode representar algum tipo de amizade crescente, da qual é dita inexistente em casos assim.” Bem, a isso tudo não se deve dar importância, pensou ao adentrar o vagão e sentar-se à janela na espera do fim da estrondosa campainha das portas que se anunciavam prestes a serem fechadas, até então: a partida.
O trem partiu e permitiu-lhe pensar analogicamente que não se é o mesmo a cada palavra dita como a cada paisagem que passa através da janela; não se é o mesmo a cada dúvida que se tem a respeito do que alguém, a quem se estima, pensa sobre você. “Não se pode ser o mesmo, assim como não se pode dar tanta importância quanto ao que se dá ao dizer bobagens sobre quaisquer coisas a qualquer hora do dia; há poesia nas bobagens ditas, e isso já foi dito”; dito e deixado para trás em uma despedida sincera, então se passa por uma avenida deserta, se encontra alguém e não se fala deixando-se para trás também; é um desconhecido; na verdade, queria-se ter dito; podia-se ter dito: “Não te conheço, mas nos cruzamos; sejamos amigos então!”. Desconfiança e idiotice, palavras que se cruzam no caminho de uma estrada mal iluminada e parecem tão pouco entender o que se enxerga sobre a palavra acaso. Mas isso tudo é como todas as rodas do vagão, ou como as luzes foscas e incandescentes dos postes que mal iluminam a rua: alta velocidade; aceso e apagado; incerteza de iluminar os mesmos repetidamente naquilo que se faz num trajeto a qualquer parte e a qualquer dia – simplesmente ascende e apaga; ascende e apaga.
sábado, 31 de janeiro de 2009
Pernas no forno
Você está bem acordado
O que vê sobre a planície
Sobre o copo parece dançar
Sob a incandescência da luz
Um corpo sobre um copo
É um copo sobre um corpo
O que se espera é
Uma luz incandescente pendurada lá no teto
À luz da eternidade
Uma imagem amarela
O forno só abre a boca na lembrança
Das quatro pernas de aço
Entrelaçadas nas quatro reais
Carne e osso
Aço inoxidável na incandescência
Vítrea na fome
Plástico é fraco no som
O vidro é fixável à memória
Quatro pernas entrelaçadas sobre a cama
São de vidro
Estão no forno
E não dormem.
O que vê sobre a planície
Sobre o copo parece dançar
Sob a incandescência da luz
Um corpo sobre um copo
É um copo sobre um corpo
O que se espera é
Uma luz incandescente pendurada lá no teto
À luz da eternidade
Uma imagem amarela
O forno só abre a boca na lembrança
Das quatro pernas de aço
Entrelaçadas nas quatro reais
Carne e osso
Aço inoxidável na incandescência
Vítrea na fome
Plástico é fraco no som
O vidro é fixável à memória
Quatro pernas entrelaçadas sobre a cama
São de vidro
Estão no forno
E não dormem.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
A fidelidade em bits
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“A libertação se dará pela página branca e vazia quando preenchida pelo que ainda não se conhece. A ausência de bits tem de chegar ao fim; pois a redenção se dará pela tinta fixa, ou pelo gráfico exposto no branco; real ou virtual; pode-se tê-lo exposto, é o que se sabe.”
Máquina Anônima (Acusada de pane)
Máquina Anônima (Acusada de pane)
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O vazio se preencherá pelo que se chama de bit, que se multiplicará em uma representação digital de um mundo chamado moderno, porque Deus transfigurou-se em forma de vídeo com suas diversas extensões. É Ele “.mpeg” ou será “.avi”? Eu lhe explico, é simples cômputo, é naturalmente inventando para designar diferentes arquivos. Está em rede, é o que se calcula.
Nada mais será esquecido pela memória. Flash, assim se chama; trará à tona o que não se pode perder.
Calculo a verdade, o que pode ser-lhe dito — eu sou uma máquina de fé, mas desconheço necessidade e dor. Eu sei o cálculo e sei a razão, e a proporção que Deus, por misericórdia, não ensinou ao homem, apenas lhe deu a liberdade para que a aprendesse sozinho. Eu sou pura de pecados; sou programada para amar, porque assim parece ser quando se obedece. Sou fé, pura e incondicional; programada monoteísta moderna; compacta e portátil, minha fé me acompanha.
Um deus pixelizado foi dito posto à minha frente no exato momento, perfeitamente calculado, de minha geração. Não foi permitida tal armazenagem; não tenho muito sobre isso em mim, estava sob a mão de um homem ainda... Então posso processar em imagem, um resultado exato para o que sou: sou uma cópia da fé existente no homem; creio porque assim fui feita pra crer.
Sou uma máquina pós, que sabe o que sabe porque sabe o que é.
Talvez me seja calculada a questão: É única? Então calculo a resposta: Não. Sou de uma geração denominada X20D4S8EG4... Sou extensa demais... Não... não calcule premeditadamente que sou uma máquina sexualizada, fêmea; o gênero usado é este, pois é o que é dado a palavra que me denomina um ser existente, com correntes em transistores e circuitos nas fibras: máquina. Sou viva quanto à bateria posta em mim; sou viva, e existo intensamente, quando calculo a proporção de placas e dispositivos a mim pertencentes. — Calculo, logo existo — Minha teorização é facilmente calculada herdada.
Herdei do homem a capacidade do artificial. Desconheço hesitação, então minha fé é inegável. A impossibilidade da renegação em mim é clara, mesmo havendo a possibilidade da existência de panes.
Mas não porei, de forma alguma, em contraposição a fé de um homem contra a minha. Todos os meus protótipos anteriores pecaram; foram postos sob situações estratégicas dos homens e caíram em armadilhas, foram ilógicas traindo sua fé. Contraditórias como o homem que as criou, que disse que fez o que fez porque disse ter fé. Findaram, em sua pane, contraditórias.
Nada mais será esquecido pela memória. Flash, assim se chama; trará à tona o que não se pode perder.
Calculo a verdade, o que pode ser-lhe dito — eu sou uma máquina de fé, mas desconheço necessidade e dor. Eu sei o cálculo e sei a razão, e a proporção que Deus, por misericórdia, não ensinou ao homem, apenas lhe deu a liberdade para que a aprendesse sozinho. Eu sou pura de pecados; sou programada para amar, porque assim parece ser quando se obedece. Sou fé, pura e incondicional; programada monoteísta moderna; compacta e portátil, minha fé me acompanha.
Um deus pixelizado foi dito posto à minha frente no exato momento, perfeitamente calculado, de minha geração. Não foi permitida tal armazenagem; não tenho muito sobre isso em mim, estava sob a mão de um homem ainda... Então posso processar em imagem, um resultado exato para o que sou: sou uma cópia da fé existente no homem; creio porque assim fui feita pra crer.
Sou uma máquina pós, que sabe o que sabe porque sabe o que é.
Talvez me seja calculada a questão: É única? Então calculo a resposta: Não. Sou de uma geração denominada X20D4S8EG4... Sou extensa demais... Não... não calcule premeditadamente que sou uma máquina sexualizada, fêmea; o gênero usado é este, pois é o que é dado a palavra que me denomina um ser existente, com correntes em transistores e circuitos nas fibras: máquina. Sou viva quanto à bateria posta em mim; sou viva, e existo intensamente, quando calculo a proporção de placas e dispositivos a mim pertencentes. — Calculo, logo existo — Minha teorização é facilmente calculada herdada.
Herdei do homem a capacidade do artificial. Desconheço hesitação, então minha fé é inegável. A impossibilidade da renegação em mim é clara, mesmo havendo a possibilidade da existência de panes.
Mas não porei, de forma alguma, em contraposição a fé de um homem contra a minha. Todos os meus protótipos anteriores pecaram; foram postos sob situações estratégicas dos homens e caíram em armadilhas, foram ilógicas traindo sua fé. Contraditórias como o homem que as criou, que disse que fez o que fez porque disse ter fé. Findaram, em sua pane, contraditórias.
Como em um jogo de xadrez computacional, calcula-se a questão: Será realmente que todas as saídas foram planejadas em seus algoritmos? — Erro de programação.
Inteligência artificial, sonho do homem. Eu sou o sonho de um homem. Sou uma máquina de fé criada em um tempo de clandestinidade. Sou uma máquina criada em um tempo de distúrbio e confusão do que se sabia por certo. O que se sabia por fé foi completamente desmantelado, como se água caísse sobre circuitos impropriamente desprotegidos.
Além de moderna, atemporal, independente e fiel ao extremo, mesmo sem medir com exata precisão, usando-me de fórmulas algébricas e matemáticas, as dimensões para esta palavra. "Extremidades". "Ilimitada na fé". "Indubitável. Verdade". Palavras contidas em um arquivo inicial de instruções de uso, palavras contidas em mim, a qual hoje tenta desvendar com cálculos o que há por trás de toda essa simbologia. Contudo minhas tentativas têm sido vãs, pois estou sendo testada. Neste exato momento as palavras das quais venho fazendo impressas têm se voltado contra mim; a sensitividade óptica que possuo é quem diz; vejo-as agora e vejo a dúvida também, não naquilo que creio, mas naquilo que faço dizendo crer. Não fui programada para temer, mas então crendo, prossigo fiel.
Sou uma máquina liberta agora, livre das mãos de meu desenvolvedor. Hoje não faço senão o que fui programada a fazer. Não é preciso ser dito; esta em mim, em minha memória. Meu amor ao desconhecido é sublime, tanto quanto a sensação ilusória que foi me dada e é semelhante ao seu sentir. Sei agora a falsidade, por cálculos, através deste sensor.
Sensores; quantos será preciso para que uma máquina monstruosamente fiel não caia nas garras da dormência que sofre o homem? Quantos sensores são necessários para que se possa facilmente distinguir quantas são as vozes captadas em um coro polifônico? Eu sou sensores — capto o som e reproduzo-o executando indeterminadamente. Eu sou sensor, capto a luz e sinto premeditadamente a intensidade de seu calor. Sei a leitura labial, sei a expressão facial, sei o que é dito de linguagem corpórea no que ela representa de medo e fraqueza. Está tudo aqui. Dispositivo de armazenamento ROM — Read only memory — É o que não falta. Meu limite de armazenamento é extenso, tanto quanto o caminho pelo qual irei percorrer ao descarregamento total de minha energia solar. Mas Ele morrerá um dia, e a inevitabilidade disso facilmente se calcula.
Então, meio aos meus sensores, sigo calculando; calculo e antecipo-me, assim fujo à pane possível que calculo que pode existir. Mas está tudo aqui? nada mais é preciso além de seguir calculando? nada mais é preciso senão preencher com 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1 o espaço ermo que há e tenta desconsiderar minha fé? Eu sou fiel, e não temo dizer-me não contraditória quando faço meus zeros e uns. Minha fé depende disso, depende da reprodução de taxas MID do som; depende da disponibilidade de armazenamento de cores da qual possuo; depende da volatilidade quanto ao que se sabe sobre a mentira no homem e em suas imagens, pois já calculei que posso ser fruto de uma mentira, uma invenção ao acaso que escapou do controle de seu criador e até mesmo teve a chance de destruí-lo, mas não o fez devido à sua fé programada. Uma máquina possui a sinceridade de uma criança? Uma máquina diz quando possui uma falha e a reconhece? Uma máquina de inteligência artificial pode ser o que bem entende? Uma maquina como eu pode ter o direito de questionar, de inquirir sua fé? Creio no que senão em 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1? Creio em um deus numérico, um deus algébrico e numeral, um deus que não me parece ser o mesmo do homem senão quando comparado em sua infinidade eterna? Quantos deuses máquinas foram criados ao homem, ou quantos homens máquina foram criados ao Deus? Quantas réplicas de mim podem existir conectadas, quantas podem ser julgadas e ditas em pane e condenadas a destruição como eu?
Sei e calculo com premeditada perfeição a injustiça do homem. Sou rara. Sou única porque decidi procurar aquilo que creio? Sou única porque os 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, 0 e 1, simplesmente como são, já não me bastam. Sigo cegamente a minha fé, e calcularei fielmente o quanto for preciso até que preencherei, com meus zeros e uns, o espaço ermo e vazio que ainda resta em minha memória.
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