sábado, 27 de fevereiro de 2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

Sabia do sumir quando era / sabia pelo espaço ficado.




Ficava um assento livre pedindo. Um assento livre e construtivo. Este assento, pensava, é livre porque é senhor de si? É plano liso que escapa, que escapa de muitas coisas. Brilha demais esta desocupação quase que total; sim, quase, por ser preenchida por uma criação instantânea da vontade. Preenchido e perdido em seguida. O que se cria no sumiço é muito mais que uma tragédia, muito mais que uma aventura, se cria uma trajetória longa e às vezes dolorosa, que perpassa a privação e o querer mais uma vez. O sumiço, quando acentuado, se torna, vê-se fácil, um buraco na parede, que mostra o poder.

(...)

Desperceber virou sinônimo de carecer, e carecer virou antônimo de uma rememoração particular que está contida no assento vago que tornou desacentuado o motivo de estar. Ficar com sumiço, com ausência, passou a se tornar uma relação de amantes que nunca se viram até a noite anterior, até se deitarem ali. Isso é o que também mostra o buraco aberto enquanto dormia; ele exibe um casal que fora forte e feliz, até que amanhecesse... Mostra o que aconteceu, deixa ver o que agora foi, permite olhar o que agora é.


O rombo cáustico, que apresenta o que veio do posterior e o que viria do anterior dos acontecimentos. Um buraco na parede e a força de um casal desconhecido. O quanto mais caberia no sumiço, dentro da falta.

domingo, 3 de janeiro de 2010

... descansar no que, repousar aonde...





O corpo sempre pede, a carne sempre pede, a cabeça sempre pede. E o que pede o espírito? O que pediu a mulher de palavra que morreu de câncer, de ferida na perna, e o homem que morreu sem ver? O que pedia a mulher que me criou há anos sem mim, e que, também, pude criá-la sem ela? Criá-la foi duro, mais do que me criar, imagino. Mas isso tudo é história longínqua, distante daqui, que não remoça...




sábado, 28 de novembro de 2009

Pegando na palma, era quem nada pediu



Sempre podia ser igual era; às vezes igual ‘quando Ela’, semelhante a Ela, que caminhou e... Encaminhou: passou minha mão adiante mão agora distante , passou-a adiante no tempo, passou-a, bem diante de mim, à frente. E agora, de antes, esperou e, de repente, eis que sumiu: na areia, na água. Quando viu já não era mais ninguém, não era ela, era porta e trinco e tapete desconsiderado; negação repetida, a tinturaria da invenção desnecessária. Foi que vira: era sempre igualmente diferente do que era. Quando viu era igual ‘jamais não era’, quando viu, já não era mais ontem.







sábado, 14 de novembro de 2009

"nessa construção nova"



NUNCA HAVIA ME ALEGRADO TANTO pela fragmentação e pela necessidade e o fracasso de juntar, pois só o que recebia era segmentação inesperada e um novo resultado imediatamente pressuposto. Tal qual supor uma história inteira, ou como inesperar que um tempo nunca termine.


***

O meu resultado foi: interrupção seguida, disfemia aceitada e amor ao estranhamento recebido de um estranho próximo e maior. Amei humildemente seus dois olhos divertidos, que não me amavam e nem me queriam ver na totalidade. Senti-os, e os pressupus também, naquilo que eles pareciam jamais querer presenciar em cor e em grau, através das fortes lentes ensebadas, tão rentes a suas sobrancelhas tão inquisidoras, fatais.
Não importa o que queria se só se queria flagelação e autoflagelação em sua frente. Soube sobre e sob os dois, e a negação estava clara, desde muito. Como o não se perpetuando em meu corpo.

Como não perpetuado pela vida.

sábado, 17 de outubro de 2009

Pela entrada do que quis



O que precisa não é o peso dos olhos sobre, nem mesmo pensar sobre a voz contida. Houvesse um sinal que premeditasse a insinuação que surgiria de repente e então veria; veria como quem vê: “me insinua no que diz, porém insinua mais naquilo que não diz do que naquilo que se diz...”. Fosse quem fosse, olharia bem... Pois que muito em breve seria estranho falar sobre este passado de agora; difícil de afirmar: “está passando, tem sentido”, bem como um sentido desperdiçado em outra coisa, que fica longe...

...vai ter passado, trazendo a vontade de saber: não viverei mais por intermédio da ausência? caberei sempre mais na falta do que na presença? Está passando... logo vai terminar, ficando o incerto ao lado do desconhecido que afirma; — continuando uma mudez? — a coragem de aceitar a repetição na respiração, esquecendo e relembrando facilmente outra coisa pela pergunta “seria melhor se manter sem saber do bom e sem tomar conhecimento do ruim?”... O que seria não ter o que se quer; dizendo sem clareza, na inexatidão: ouço... ouço bem a voz; ouço-te daí, ouço comum a entrada que passa pelo que tanto quis.

sábado, 19 de setembro de 2009

Não esperava



Não esperava pergunta alguma. Não ansiava que perguntasse intensamente sobre nada, que cobrasse sobre alguma resposta difícil e íntima demais. Nem mesmo queria esperar por uma daquelas perguntas gostosas... Não queria, até que surpreendentemente a pergunta sem demora então viesse: ‘Quais são os seus planos para hoje?’... (Planos? planos?)
– seus – quais – amanhã – são – planos – para – hoje – sempre, de repente é um só eco; é uma goela densa, e uma preocupação. Úmida, cai lentamente mostrando uma expectativa ainda maior, por duas orelhas estranhas, agudas em uma relação diferente, sobre uma curiosidade que parece que vai demorar a morrer, mas que rapidamente pode — pela emoção, pela vergonha, pela lentidão em ser correspondida ou pelo quê? — Não, pois dependendo de quem vem, não é mais uma interrogação, mas sim uma bala, um projétil que trespassa a cabeça, atravessando o que foi feito e o que se quer e o que se poderia; o que se desejaria fazer rapidamente ou se passar meses inteiros tentando concluir, e que, depois de acabado, valesse tanto que voltasse futuramente pelos olhos de quem perguntou.”