sábado, 19 de setembro de 2009

Não esperava



Não esperava pergunta alguma. Não ansiava que perguntasse intensamente sobre nada, que cobrasse sobre alguma resposta difícil e íntima demais. Nem mesmo queria esperar por uma daquelas perguntas gostosas... Não queria, até que surpreendentemente a pergunta sem demora então viesse: ‘Quais são os seus planos para hoje?’... (Planos? planos?)
– seus – quais – amanhã – são – planos – para – hoje – sempre, de repente é um só eco; é uma goela densa, e uma preocupação. Úmida, cai lentamente mostrando uma expectativa ainda maior, por duas orelhas estranhas, agudas em uma relação diferente, sobre uma curiosidade que parece que vai demorar a morrer, mas que rapidamente pode — pela emoção, pela vergonha, pela lentidão em ser correspondida ou pelo quê? — Não, pois dependendo de quem vem, não é mais uma interrogação, mas sim uma bala, um projétil que trespassa a cabeça, atravessando o que foi feito e o que se quer e o que se poderia; o que se desejaria fazer rapidamente ou se passar meses inteiros tentando concluir, e que, depois de acabado, valesse tanto que voltasse futuramente pelos olhos de quem perguntou.”

sábado, 29 de agosto de 2009

Num único dia marrom



SÓ SEI QUE QUANDO DEI POR MIM, já estava pego. O dia me pegou e nem percebi; foi instantâneo, fugaz: o dia me pegou e só em seguida me peguei pegando o dia. Fui claro, foi breve; fui fácil, foi simples. Nosso contato se deu sobre a terra úmida; ainda sobre suas mãos macias e frutíferas que me deram o tom de sua profundidade escura; em seguida, a fosforescência clorofilada de que sempre ansiei brotar, ser feliz e lembrei-me da boca brilhosa da mulher que não queria amar nada que lhe fosse gratuito, e eu parecia querê-la como se tivesse escolhido o caminho tortuoso de falar na multidão estando nu. Descobri que a minha confusão era objeto de diversão; provia o divertimento resoluto através de mim! parecendo que faltou intensidade, que ali não caberia a verdade e amar a cor de um dia do qual nunca possuí totalmente, ter a cara de um único dia na certeza de que nunca o possuirei por completo. Sempre apenas em alternância, apenas a cada temporada isolada.

sábado, 8 de agosto de 2009

— a predisposição, o espaço,

Quis recostar a cabeça e fechar os olhos como se não tivesse culpa alguma no mundo. E manter de uma maneira fácil o que tanto era necessário manter. Em um salto grandioso que acontece, se percebe que não se pertence mais: não se é do homem, não se é do tempo, não se é das palavras sábias de ninguém. De um momento para o outro aparece a noção de que ontem, hoje e amanhã são na verdade uma pessoa que, em pé, teme se entregar, não conseguindo ser o que acha que é. (E só queria ser a respiração, o livre caminhar pela calçada, sem sonhar e sem saber, mas que entretanto se vê forçado a ser a cidade, que é feita de pedra da mesma maneira que o chão, rufando e recebendo). O que ainda pensaria ser, e o que ainda pensaria em ser, se lhe fosse apresentado, como novo e possível, um caminho breve que portasse o esquecimento, engolindo o que só se queria debaixo de chuva. Só não crendo no possível para não acreditar no que sentia. Contra a disposição e o cansaço de uma luta de quem nem mesmo lembra o que faz e por que faz, de tanto repetir “isso é preciso”. Quem sabe a ligação não devesse ser necessária nunca mais e o que se constituía em uma visão anterior fosse completamente solto e independente da visão que ainda viria; e não mais necessitasse de fins e nem de uma continuação, e a interrupção lhe passasse a ser definitivamente cultuada, como um ritual sagrado. Ficaria presumível sem poder deixar o branco, o espaço reservado, a lacuna... o espaço.

sábado, 1 de agosto de 2009

Se não se diz



Porque não 'se dizer alguma coisa' parece ser tão atraente quanto ao 'se dizer': onde então se ocultava a clareza de uma sinceridade?, ela que, buscada, se perdia na penumbra de uma esquina na rua da casa, às 19 horas numéricas de não condescendência com o que se diria. Pois se o dizer seria uma arte, o não dizer seria o quê? seria...

sábado, 11 de julho de 2009

Necessidade conspurcada

Ficou tarde — o que já estava feito apareceu; o que já não podia alterar se interpelou; desapareceu o ponto de partida — o início, o meio e o final — a necessidade de trabalhar conjuntamente com a percepção. O conhecimento ao cômico aparece: pequeno e brotando de alguma dificuldade — caminhando em direção ao sensual — à cabeça, uma luz dita pomposa e que transcende: vaga e sonolenta a idéia de que para que se possa pôr a vista sobre si, deva-se realmente rememorar o esquecimento do que lhe será atribuído, e reviver de onde encontrou um pedaço de seu “meu”. “Estar para dizer que se está” e “fazer para dizer o que se faz” passam a se tornar o grande medo — melhor seria a ausência de um lugar; o não-querer-pertencer, e ficar onde ficou o rabisco do que se disse fácil, simples... pouco, banal...

sábado, 27 de junho de 2009

...

(Stela) Nem Maria do Socorro nem seu Nelson — e até mesmo a Ana — deixavam-na passar pelo portão.


Numa sexta-feira sem sim descobriu que o não jamais seria pronunciado da maneira que poderia: parar sem se alongar e aguardar a vontade; mas a vontade vem quando pensa no fim; teve um fim e parou de se criar ou apenas se interrompeu por um instante — olhou para os lados e passou.

sábado, 13 de junho de 2009

Stela (um peso a menos)

Não seria preciso fingir estar só, para poderem estar juntos. Podia-se dizer que... sentariam frente a frente. Sentar-se-ia a sua frente — estar frente a frente com a boca que não sabe por que fala, com as orelhas que não sabem por que ouvem, e de costas ao rebusco interminável. Ficando pelo chão de um estado que não deve ser mencionado, porque se está longe da casa — e ela não queria ver ninguém lá, não queria olhar pro gás, nem pro corpo e nem pra cabeça deles, disse. Não querer ser como se é, é um desconhecimento. E se ser a si é uma grandiosidade, por que não querer ouvi-la? Por que não desejar estar ao lado?
(...)
Devia contentar-se apenas com a sombra, para que pudesse se satisfazer e ter em mente o que na verdade devia; o que, na realidade, lhe faltava. Deveria realmente ouvi-la, para que pudesse escapar. Ainda que o que se vê não tenha rosto, o que se vê, enfadonhamente, se repita, o medo e o sonho do desmanche tentarão desmentir a face dela, falando de feiúra e do tamanho que ela tinha. Se a botaram pra nascer, a culpa foi de quem? Se a encarnaram e a desencarnaram, reencarnaram e desencarnaram o que é que poderia ser feito, sem que lhe trouxessem a lembrança do estudo que a tornaram? Se, em um momento vago, se faz fácil encontrá-la, se faz necessário abordá-la, como quando se aborda alguém na rua, é porque a crença é pouca. O que se sente é o abraço de algum desconhecido que se encontra na calçada e, dessa maneira, se prossegue aceitando, com o braço do estranho no pescoço.
(...)
Não querer ver ninguém no mundo — é doença. É requerido um estudo detalhado. É necessário por a cabeça sobre a mesa e olhá-la com um só olho. Analisá-se a forma de uma mulher dessa maneira, pois querer viver comendo, bebendo e fumando — é natural. E é dito mais — é necessário para o prosseguimento de mais dias. Contudo, vida fácil — não nesse mundo. Não é como gosta. São todos expulsos de seus chãos; expulsos sobre as camas, ela disse que foi dito que lá não se podia ficar. Diferente da pergunta: para onde se vai quando se cai da cama estreita?, seria dito: é para onde se cai quando se vai da cama estreita.
(...)
Já estarão perto, aceitando um do outro o que não se queria e não temendo não fazer para agradar; recebendo mutuamente o presente que se perderia se assim não fosse.