sábado, 1 de agosto de 2009

Se não se diz



Porque não 'se dizer alguma coisa' parece ser tão atraente quanto ao 'se dizer': onde então se ocultava a clareza de uma sinceridade?, ela que, buscada, se perdia na penumbra de uma esquina na rua da casa, às 19 horas numéricas de não condescendência com o que se diria. Pois se o dizer seria uma arte, o não dizer seria o quê? seria...

sábado, 11 de julho de 2009

Necessidade conspurcada

Ficou tarde — o que já estava feito apareceu; o que já não podia alterar se interpelou; desapareceu o ponto de partida — o início, o meio e o final — a necessidade de trabalhar conjuntamente com a percepção. O conhecimento ao cômico aparece: pequeno e brotando de alguma dificuldade — caminhando em direção ao sensual — à cabeça, uma luz dita pomposa e que transcende: vaga e sonolenta a idéia de que para que se possa pôr a vista sobre si, deva-se realmente rememorar o esquecimento do que lhe será atribuído, e reviver de onde encontrou um pedaço de seu “meu”. “Estar para dizer que se está” e “fazer para dizer o que se faz” passam a se tornar o grande medo — melhor seria a ausência de um lugar; o não-querer-pertencer, e ficar onde ficou o rabisco do que se disse fácil, simples... pouco, banal...

sábado, 27 de junho de 2009

...

(Stela) Nem Maria do Socorro nem seu Nelson — e até mesmo a Ana — deixavam-na passar pelo portão.


Numa sexta-feira sem sim descobriu que o não jamais seria pronunciado da maneira que poderia: parar sem se alongar e aguardar a vontade; mas a vontade vem quando pensa no fim; teve um fim e parou de se criar ou apenas se interrompeu por um instante — olhou para os lados e passou.

sábado, 13 de junho de 2009

Stela (um peso a menos)

Não seria preciso fingir estar só, para poderem estar juntos. Podia-se dizer que... sentariam frente a frente. Sentar-se-ia a sua frente — estar frente a frente com a boca que não sabe por que fala, com as orelhas que não sabem por que ouvem, e de costas ao rebusco interminável. Ficando pelo chão de um estado que não deve ser mencionado, porque se está longe da casa — e ela não queria ver ninguém lá, não queria olhar pro gás, nem pro corpo e nem pra cabeça deles, disse. Não querer ser como se é, é um desconhecimento. E se ser a si é uma grandiosidade, por que não querer ouvi-la? Por que não desejar estar ao lado?
(...)
Devia contentar-se apenas com a sombra, para que pudesse se satisfazer e ter em mente o que na verdade devia; o que, na realidade, lhe faltava. Deveria realmente ouvi-la, para que pudesse escapar. Ainda que o que se vê não tenha rosto, o que se vê, enfadonhamente, se repita, o medo e o sonho do desmanche tentarão desmentir a face dela, falando de feiúra e do tamanho que ela tinha. Se a botaram pra nascer, a culpa foi de quem? Se a encarnaram e a desencarnaram, reencarnaram e desencarnaram o que é que poderia ser feito, sem que lhe trouxessem a lembrança do estudo que a tornaram? Se, em um momento vago, se faz fácil encontrá-la, se faz necessário abordá-la, como quando se aborda alguém na rua, é porque a crença é pouca. O que se sente é o abraço de algum desconhecido que se encontra na calçada e, dessa maneira, se prossegue aceitando, com o braço do estranho no pescoço.
(...)
Não querer ver ninguém no mundo — é doença. É requerido um estudo detalhado. É necessário por a cabeça sobre a mesa e olhá-la com um só olho. Analisá-se a forma de uma mulher dessa maneira, pois querer viver comendo, bebendo e fumando — é natural. E é dito mais — é necessário para o prosseguimento de mais dias. Contudo, vida fácil — não nesse mundo. Não é como gosta. São todos expulsos de seus chãos; expulsos sobre as camas, ela disse que foi dito que lá não se podia ficar. Diferente da pergunta: para onde se vai quando se cai da cama estreita?, seria dito: é para onde se cai quando se vai da cama estreita.
(...)
Já estarão perto, aceitando um do outro o que não se queria e não temendo não fazer para agradar; recebendo mutuamente o presente que se perderia se assim não fosse.

sábado, 30 de maio de 2009

Resumo no gesto

O que aparentava ser era que sua vida inteira, sua existência, seu futuro, e até mesmo a sua morte, concentravam-se, num perfeito encaixe e com total exatidão, em um único gesto. Era como se necessitasse sentar frente a alguma grandiosidade que não tivesse sido erguida pela mão de homem algum, repetindo para si: “Pendo. O que sinto é que pendo feito um objeto na ponta do barbante”, oscilo para frente e para trás semelhante ao balanço das águas. Ajeitar o cabelo; levar o café ou o cigarro até a boca; passar a página lida; amparar um cachorro com sarna; salvar uma vida do fogo: renovar-se de uma maneira diferente cada vez que repetidos os mesmos movimentos — era mais do que isso. “Sou toda mesclada no todo”, parecia pensar a mulher, com seu olhar rente a alguma janela, sabendo que um todo pode ser constituído por partes que se puxam e se retraem. Pertencemos todos ao mesmo balanço, parecia querer dizer, porém sendo guiados por maquinistas diferentes em um único trem; avançamos e recuamos sem muita importância à falta de autonomia do gesto. Fazemos porque deve ser feito; por isso é que detestamos interferências; se segue assim porque não há um outro vagão; cambaleamos no aguardo; esperando o impacto com a parede erguida para se tapar a ausência de uma crença maior. A parede que antes tapava a causa de não poder levantar os olhos lentamente, olhar para o lado e dizer: “Acho que quero descer”, quase já não era vista. Era-lhe preciso criar um recuo; era-lhe preciso esperar; mas que se possível, que fosse numa rocha com musgo nas laterais, postada frente a alguma grandiosidade da terra, bem distante de qualquer estação.

sábado, 16 de maio de 2009

Incerteza sob o céu

Lembra-se frequentemente em momentos de distração, de uma coisa de grande importância; no intervalo de quando se pensa na maneira da qual se organizará as tarefas quando se chegar, como se porá em ordem os papéis, como se disporá os objetos sobre a prateleira: — mas afinal, quantas vezes ainda será possível que algo renasça e depois despenque, de tal maneira que a si próprio pareça não ter significado algum? A imagem que se tem é a imagem de um alguém que se joga da ponte, de costas e de braços abertos, mas que quando cai, cai no macio; cai feito cruz ou espada no florido macio do campo; o terreno fofo o ampara sentindo ter braços e, ainda por cima, o presenteia, colocando sobre seu corpo a fosforescência de um céu azul que se disse ser assim porque nunca fora visto da mesma maneira. Pode-se acenar para ele, ele diz, sem estranhamento e sem culpa, sem medo de se entregar ao desatino nos olhos distantes. Não... mas não era bem isso o que queria; a imagem talvez fosse outra, é que esqueceu como era. E quanto à coisa de muita importância?, onde ela fica? e o que vem depois do que se esquece, e se sorri com pasmo nos lábios?: “não se pode calcular o quanto de beleza ou o quanto de verdade pode ser carregada nas costas daquele que diz tornar as coisas mais fáceis através de uma imagem, retirando realces de um teto incolor, pra que não perceba, embaixo de seus pés, alguma substância perigosa, que exalaria um vapor tão nocivo, que o faria cair para trás”. Então é isso: o individuo não se jogou das alturas — apenas caiu para trás. O que parecia renascer naquele instante, não renasceu: mas caiu para trás.

sábado, 9 de maio de 2009

Vida nos bolsos

Que fazer diante de tudo que via além de friccionar os dedos no recanto secreto que se fez o bolso das calças, pra que não fizesse algo como erguer as mãos, unidas e abertas, diante do que jamais poderiam receber? — Atritam-se o indicador e o polegar então —, pois sem isso, a nudez seria sentida; como que sem roupas, acocorar-se-ia no chão. Não podem elas, as mãos, serem erguidas assim, de um momento para outro, diria alguém; pode haver uma entrega, com suor e confusão, da real percepção da discrepância entre o que havia e o que realmente poderiam sustentar. — Esfregam-se todos os dedos; ninguém os sabe e ninguém os viu. Atritam-se lentamente, quentes, protegendo tudo que desmoronaria de um momento para o outro, tão rápido quanto poderiam ser erguidos os braços na face daquele céu. A sustentação na transpiração! tão secretas e protegidas; as duas, unidas e abertas, impotentes diante do dia, esperando receber o que ninguém entenderia. É assim que poderiam desejar, realizando-se mais do que resguardando um objeto de valor? Ou acariciando a face da pessoa amada? Por um momento então param — porque as pessoas da fila podem apenas supor o que existe nos bolsos das calças alheias; podem apenas supor, entendendo que são um abrigo comum, sem saberem que na verdade resguardam, no tecido da sombra calorosa, de linho ou algodão — não pôde bem distinguir, talvez fosse um composto, ou 100% algodão apenas —, a verdadeira identidade daquilo que se sente; daquilo que se espera em pé, com os olhos bem abertos, denotando que são eles que deviam agarrar o que se via e que não estava ali.
Linho ou algodão; sem aquilo os pés podiam falhar, e, com o histerismo pela queda do corpo, as pessoas dali perguntariam, e diriam atônitas na ajuda: “como estão frias, as suas mãos!”, sem saberem o que falta, sem saberem o que se espera; sem saber o que se tem.